Causo

Causos de fadas.

A Outra Versão

22/12/2008 - 01:57:25

Há pouco mais de oito anos, li um trecho do seu diário a relatar essa passagem das nossas vidas; fiquei constrangido por tratar-se de mim, em carne e osso, cagado e cuspido, mas, por outro lado, agraciado por fazer parte desse capítulo autobiográfico de uma mulher que jamais esqueci. Não chamarei ninguém pelo nome, diferente do que ela fez em sua versão, pois, numa finalidade distinta, a minha será publicada.

Em meados de 1999, abandonei o curso acadêmico de Filosofia para passar uma temporada em Brasília, mas pouco tempo fiquei; talvez três meses até voltar à minha cidade natal, Ilhéus. Eu, um garoto de dezenove anos que até então era sustentado pelos genitores, mal sabia o que fazer da vida, talvez tivesse a intenção de ser músico ou artista plástico mesmo sem coragem para enfrentar o preconceito familiar, ou repleto de covardia por não se sentir capaz. Em casa, vivia em frente ao computador enquanto o meu pai pedia insistentemente para que eu estudasse a fim de prestar um concurso público da área do Direito, a sua especialidade, todavia eu fingia que concordava e ele fingia que acreditava numa decisão minha favorável às suas pretensões. O clima do lar era tenso, pois havia abandonado a faculdade por uma viagem que ninguém sabia ao certo do que se tratava; a princípio, eu iria montar alguns servidores de internet no DF, mas era mais uma balela da minha vida desleixada para ter sexo e drogas longe de qualquer pessoa que me conhecesse desde criança. Um dia liguei chorando para a minha mãe e pronto, as passagens de volta estavam lá no dia seguinte, mas um inferno astral se preparava para questionar a validade das minhas diretrizes por muito tempo.

Sempre fui uma pessoa de hábitos noturnos, por ser boêmio ou viciado em café, portanto, distante das vidas que dormiam, eu criava um mundo e aceitava outros tantos que se proclamavam à minha frente. Numa dessas noites, voltei bêbado da rua, liguei o computador, executei o navegador de internet e entrei num sítio eletrônico de bate-papo qualquer, não me lembro qual. Chamei-me “Nietzsche”, mas errei a grafia, coloquei o “t” à frente do “h”, troquei porque ainda mal sabia quem era o existencialista, conhecia-o de alguns resumos e da leitura superficial de “Humano, Demasiado Humano”, apenas pensei que seria “cult” ou qualquer zorra que o valha. A sala de Ilhéus estava cheia de homens, o que me desanimou, mas havia uma mulher que se apresentava como Ruiva; cor de madeixas que sempre mexeu com as minhas fantasias e libido. Iniciei a conversa com ela, que foi receptiva, entretanto, quando o dia estava prestes a raiar, algum fela da puta que cismou com a grafia incorreta do nome alemão, resolveu espezinhar-me em canal aberto, colando textos imensos do próprio Nietzsche na sala, para que, talvez, eu me sentisse envergonhado por ter cometido aquela, segundo o mesmo, profanação filosófica. Com o pouco de argumento que possuía, tentei debater com o desgraçado, contudo, para a minha surpresa, a ruiva me disse que precisava sair, mas me deu o número do seu telefone e pediu o meu. Era tudo o que eu precisava; dei o número, saí da sala e liguei para ela. Logo que atendeu, percebi que possuía um sotaque paulistano marcante. Perguntei-lhe o nome e ela me disse, perguntou-me o meu e eu também. Contou-me ser engenheira florestal e eu respondi, mentindo, ser estudante de Filosofia (nunca mais retornaria ao curso). Descreveu-me das poucas amizades que havia feito na cidade e de como precisava conhecer novas pessoas, então, propus-me conhecê-la, mas disse que não tinha um puto no bolso. Apesar de estar lidando com um liso e sem vergonha, a ruiva afirmou que não haveria problema se só ela bancasse a saída, por conseguinte marcamos para as duas horas do dia que acabara de nascer em um quiosque da Avenida 2 de Julho, um reduto de turistas. Aproximações e planejamentos feitos, despedimo-nos e fui dormir.

Assim que acordei, mal recordava do horário marcado, mas, faltando meia hora para o dito cujo, passei pela frente do computador e me lembrei. Ainda com os olhos inchados, procurei o telefone da ruiva, achei com dificuldade e liguei apressado para avisá-la que eu poderia chegar alguns minutos atrasado. Ela atendeu e, gentilíssima, pediu para que eu não tivesse pressa, pois estaria no Centro para resolver pendências pessoais. Tomei um banho rápido, vesti-me e fui a pé ao local marcado.

Quando estava perto de chegar, liguei do celular para ela.

- Já estou aqui. – respondeu.

Apressei os passos para encontrá-la e, quando cheguei, deparei-me com uma mulher madura para a minha idade, de seus 30 anos, o que causou um certo afastamento meu pela experiência inédita. Ela não era bonita, ou melhor, não era convencionalmente bonita; tinha dentes pronunciados, algumas tatuagens e os cabelos mais vermelhos que eu já tinha visto, vermelhos com química. Conversamos durante um bom tempo a beber algumas cervejas, reduzimos o distanciamento inicial e, aproximando-se do ocaso, preferimos ir embora dali. Como morávamos na mesma direção para quem saía do Centro, caminhamos juntos até a entrada do meu bairro, mas ela me fez um convite:

- Quer conhecer o meu apê? Eu moro logo ali em frente! – aceitei.

O apartamento da ruiva era algo espetacular, uma mistura de culturas bem interessante; das cores posterizadas do “Post-punk” inglês às luminárias japonesas, tudo se parecia com ela. Pedi para ver uma tatuagem de estilo tribal em suas costas, um desenho agressivo. Ela ergueu um pouco a camisa e se virou de costas. Eu pedi para tocar, pois, apesar do tamanho e diversidade das cores, não apresentava nenhum quelóide, mas, centímetros antes do toque em si, eu quis virá-la com força para beijá-la ali mesmo; não o fiz, insisti forçosamente um olhar clínico sobre a tatuagem, deslizando os meus dedos a esperar que ela esboçasse um sinal para que eu desistisse daquilo e tornasse ação o meu desejo.

Continua, ou não.

Causo

Precisão

15/12/2008 - 19:46:26

Sim, desejei levantar-me a fim de contá-la quanta saudade sentia, mas permaneci sentado, olhando para o palco como quem presta atenção à peça; fingi que não a vi. Por toda a confusão passada, mentiras minhas e dela, o ódio que senti, o mesmo que me autorizou a xingá-la sem o menor senso crítico, tornou aquela paixão dolorosa a partir do distanciamento abrupto; nutri com ódio um amor que insisti - incessante, falacioso e em fracasso - negar.

Lá pelo terceiro ato, quando me questionei se aquela situação me fazia bem, saí dali e me encaminhei ao hall de entrada do Municipal; o meu coração mal me deixava respirar de tão excitado, eu queria voltar, mas me sentia impotente… as minhas mãos suavam frio, os meus lábios tremiam e nada ao meu redor parecia digno de ser notado - assemelhava-me a um adolescente, um bêbedo ou, quiçá, um retardado.

Sobre o chão de mosaico que sempre me causou tontura, naquele momento em dobro, caí.

- Fausto! - ouvi o grito. - Fausto! - não queria que fosse aquela maldita, - Fausto! - mas era.

Causo

Fragmento da Promessa Não Cumprida

23/11/2008 - 01:00:37

Contrariando a normalidade, cheguei cedo à sala de aula, quase duas horas antes do início da maçante disciplina de composição, pois me sentia tensa por não ter conseguido criar os desenhos necessários para que fosse avaliada; faltava duas semanas para a entrega dos trabalhos e eu mal havia terminado a primeira metade. Surpresa, encontrei Melissa sentada à última fila de cadeiras, com um semblante comtemplativo, bloco aberto e bastões de papel espalhados sobre a mesa: apesar de ser criativa, quase sempre chegava atrasada e não correspondia aos apelos de todos os professores para que fizesse o proposto.

- Boa noite, Melissa! - cumprimentei.

- Oi, Bruna! Você pode me ajudar? - logo imaginei que deveria estar em situação muito pior do que a minha.

- Depende… Fala.

- Eu não agüento essa aula de Lúcia, são tantas instruções que me sinto acorrentada.

- É verdade, às vezes me confunde.

- Sabe, eu só assisto a aula dela chapada.

- Percebi! - sorri.

- Percebeu? Ai, meu Deus! - ironizou.

- Sim, está com dificuldades nos trabalhos?

- Não, estou com dificuldade com a dita cuja! - apontando para o chão da sala, indicando que a presença de Lúcia no ambiente era intolerável.

- E como posso te ajudar? Não entendi.

- Bem, estou careta: não tive tempo para fumar unzinho antes de vir para cá.

- Mas eu não curto.

- Bem, é que um cara me convidou pra fumar, logo que cheguei aqui.

- Sim, mas eu não curto.

- É por que eu não o conheço direito.

- Você tá querendo que eu vá contigo?

- Só pra não dar confiança pra ele, por favor!

- Não sei, Melissa. Se der merda, como fico?

- Falta muito pra aula começar e vai ser lá no terrraço. A gente sobe, como quem não quer nada, e ninguém fica sabendo.

- Olha, não sei.

- Poxa, Bruna, lá é a céu aberto; nem vai sentir cheiro!

Olhei para aquela cara pidona, implorando pela minha companhia, e, mesmo sabendo que ela queria me usar de escudo para uma possível investida do suposto cara, senti pena.

- Tá certo! - assim que falei, ela abriu um sorriso de criança quando ganha chocolate. - Mas tem um porém…

- Lá vem!

- Não quer que eu vá?

- Claro, desculpa… Diga.

- Qualquer roubada, você assume a culpa toda.

- Mas não vai acontecer, relaxa!

- Isso eu espero, mas prometa que irá assumir.

- Tá bom, tá bom! Eu prometo.

Causo

Ensaio Geral

15/08/2008 - 06:22:52

Após sair do estúdio, ainda com a ardência da quinta e última seção de pintura de uma tatuagem no tórax, acenei apressado para o primeiro táxi que vi, já noite, em meio aos travestis que começavam a trabalhar nas ruas da Vila Buarque. O veículo encostou próximo à calçada, poucos metros à minha frente, e dei um pique para alcançá-lo. Abri a porta rapidamente, entrei e sentei no banco de carona.

- Boa noite! Avenida Moema com Ibirapuera, por favor. – pedi.

- Boa noite! - o taxista, um homem grisalho a aparentar cinqüenta anos ou mais, acionou o GPS, definiu o destino, constatou o resultado no aparelho e me informou: - Quarenta e cinco Reais, senhor, porque o Minhocão está engarrafado, de acordo com a previsão de tráfego.

Desde que os taxistas começaram a cobrar antecipado, com essas engenhocas construídas por estadunidenses, inventam que há um engarrafamento aqui e outro ali quando percebem que não estamos carregando nenhum aparelho celular e não podemos verificar a previsão, mas, cansado, apenas movimentei a cabeça em sinal de afirmativo e paguei no cartão, mantendo um breve silêncio a ser quebrado assim que o motorista sintonizou o aparelho de rádio numa estação de música popular brasileira; tocava Sivuca.

- E o jogo de abertura, vai? – perguntou-me, referindo-se à Copa do Mundo.

- Não, não gosto de futebol. – respondi sem rodeios, mais preocupado com a dor da tatuagem recente.

- Faz bem, com essa seleção é o melhor que se pode fazer! – ensaiando um sarcasmo que eu mal pude entender, por não saber mesmo de nada sobre futebol, mas tentei deduzir.

Causo